Carroças
Jamais creia que os animais sofrem menos do que os humanos. A dor é a mesma para eles e para nós. Talvez pior, pois eles não podem ajudar a si mesmos." - Dr. Louis J. Camuti
O que é:
Exploração de equinos por meio da doma e domesticação, e trabalho forçado atrelados a carroças e charretes para puxar peso por longos trajetos.
O que ocorre:
Em muitas cidades é comum ver cavalos maltratados, mal nutridos e explorados, puxando pesadas carroças, muitas vezes carregadas de resíduos provenientes de nosso estilo de vida perdulário.
Ao lado dessas humildes carroças - veículos movidos por um só cavalo - passam intermináveis filas de automóveis - veículos metálicos e brilhantes, dotados de uma força equivalente a dezenas, ou centenas, de cavalos ou HPs (horse power) - enfim, máquinas insensíveis que desconhecem o cansaço e as rotinas enfadonhas.
Essa imagem contrastante pode ser violenta para olhos sensíveis, ou corriqueira, para aqueles que estão anestesiados e intoxicados pelas falsas "verdades" de nossa cultura massificada. Nem sempre a técnica veio para libertar ou diminuir o sofrimento dos animais ou dos seres humanos, os "auto-móveis" (o que significa "auto-móvel": algo que anda, ou se move, por si próprio?) que se cansam, sofrem e sentem. (Paula Brügger, cavalos: vida e morte repletas de sofrimento).
Os nossos amigos grandões precisam de ajuda. É difícil resgatá-los das ruas. Sempre sozinhos vagando em estradas, com sintomas de desidratação, desnutrição, anemia e maus-tratos, são totalmente esquecidos ou ignorados. Esses animais sofrem muito. E da pior forma, que é sofrer no desamparo.

São forçados a puxar peso durante quilômetros sobre estradas de asfalto quente, em meio a carros, ônibus e caminhões, respirando fumaça tóxica e se assustando com buzinas, enquanto as amarras esfolam a sua carne, as chicotadas dilaceram o seu dorso e as viseiras arranham seus olhos. Uma carroça carrega meio metro cúbico de areia, o que corresponde a 700 kg, camionetas com 70 HP (HORSE POWER) têm capacidade máxima de 500 kg. A proporção é absurda.
O cavalo tem saúde frágil. Pode vir a óbito por tosse (garrotilho) ou cólicas abdominais (dor de barriga). Sinais de doença podem ser detectados pelos sintomas – apatia, embotamento dos olhos, pelagem sem vida, corrimento nasal. Observe se tem feridas, nódulos, arranhões, parasitas, ou temperatura basal elevada (febre).

Muitos dos animais, puxadores de carroça, passam um dia inteiro sem beber água. Vermífugos? Vitaminas? Vacina anti-rábica? Não fazem parte do vocabulário dos seus tutores carrascos.
Cavalos possuem o limiar de dor mais baixo que o do humano. Ou seja, sentem mais dor do que nós, mas não podem gritar e pedir socorro...
Alguns cavalos trabalham com uma pata (mal) ferrada e a outra não.


Égua abandonada para morrer, após ser usada até exaustão total.
Quanto às necessidades naturais da espécie, lhes é privado o principal para manter a saúde física e mental: Andar e pastar livremente na companhia de outros cavalos. Eles precisavam pastar durante o dia todo, pois precisam de grande quantidade diária de nutrientes. E o grupo representa segurança vital para os seus integrantes. Além de terem espírito livre por natureza, eqüinos e qualquer outro animal não merecem viver atrelados e amarrados.
Em janeiro de 1889, em Turim, o grande filósofo alemão Friedrich Nietzsche abraçou e beijou, aos prantos, um pobre cavalo brutalmente espancado pelo explorador, se interpondo entre o animal e seu cruel condutor. Sua atitude foi a "gota d'água" que lhe rendeu o rótulo de "louco".
Logo após o incidente, ele foi internado como doente mental. Mas o que o seu gesto de fato demonstrou: loucura ou uma profunda lucidez?
Cavalos são animais de manutenção cara (alimentação, estábulo, assistência veterinária, remédios, vacinas, vermífugos, higiene, ferraduras, etc.). Carroceiros não têm condições de mantê-los adequadamente. Portanto, qualquer cavalo, de qualquer carroceiro, vive de maneira precária. A natureza do animal é passar 90% do seu tempo pastando, mas o que acontece é ficar 100% trabalhando!


Morto por exaustão e desnutrição.
Doenças: Sendo o cavalo uma fauna sinantrópica reemergente, é fundamental que se adotem estratégias de prevenção ao aparecimento de zoonoses (doenças transmitidas entre o homem e os animais). Dentre as principais, potencialmente transmitidas pelo cavalo, estão a raiva, a leptospirose, a febre maculosa e a doença de Lyme ou borreliose, estas duas últimas transmitidas pelo carrapato do cavalo.
Existem ainda outras doenças como a rinopneumonite eqüina, o mormo e a brucelose. Como os carroceiros percorrem grandes distâncias pela cidade, podem ainda transmitir doenças inerentes ao cavalo, as quais podem afetar populações controladas como as de jóquei, centros hípicos, regimentos de cavalaria, centros de treinamento e haras de nossa região. Nesse aspecto, destaca-se a anemia infecciosa, doença similar a AIDS humana, que causa uma imunodeficiência, cujo tratamento é ineficaz e o sacrifício obrigatório por ser facilmente transmitida a outros animais, seja via vetor (moscas picadoras) ou via instrumentos com sangue.

Abandonada para morrer - Ilha de Paquetá - Veja os Trollers ao fundo.
Como são negligenciados por seus tutores, e sequer possuem local adequado para se abrigarem com segurança e conforto durante as noites, além de ficarem ao tempo, no frio e chuva, ficam sujeitos a maus tratos, torturas, envenenamentos e assassinatos na rua.
Em algumas cidades é contra a lei ter carroça no perímetro urbano. Mas não há fiscalização. Poucos sabem da lei para denunciar. E os carroceiros a infringem normalmente. São inúmeros (e bárbaros) os casos de violências e assassinato de eqüinos pelos próprios tutores.

Quando sofrem fraturas (pelas condições de trabalho a que são submetidos), pneumonia (por serem amarrados e deixados sob forte sol e chuva), bicheira (pelos ferimentos dos arreios e chicotadas não tratados), etc., não recebem cuidados veterinários. Adquirem horríveis anomalias na coluna vertebral, devido à violência contra seus limites do corpo: peso na carroça, peso no lombo, horas de trabalho, instalações para dormir e descansar, alimentação...
Não recebem alimentação adequada. Costumam ser deixados em lixões para procurarem algo que comer por lá. Correm riscos de ingerir lixo contaminado e plástico, se machucar com vidros e agulhas, etc.
Quando desfalecem de dor e fraqueza do meio da rua, são abandonados por lá. Outros são vendidos para abatedouros clandestinos quando não se mostram mais úteis.

Vítima de maus tratos.
Casos:

Ficou nesse estado (doente, semi-morta, exausta...) pela exploração em carroça. Imaginem as dores, desespero e desamparo. O poder público do município de Queimados, ao ser contactado, não fez nada, mesmo que legislativamente todo animal é tutelado do estado! Depois de mais de 10 horas agonizando e sofrendo, a égua faleceu. Mais uma vida que só conseguiu se livrar da escravidão morrendo, não tendo chance de conhecer a paz, felicidade, amparo, respeito e tranquilidade em vida.

Égua resgatada pelo Ministério Público, no sul, após denuncia de maus tratos.
Ela foi desatrelada da carroça e o carroceiro foi para a delegacia.
Não raro, animais com feridas no dorso por causa das amarras, e anomalias dos ossos e articulações, devido a fraturas não tratadas e artrites.
Soluções:
- Olhe de frente nos olhos daqueles animais e veja a falta de brilho em cada olhar, o olhar perdido de cada um, oriundo da escravidão e falta de respeito do ser humano para com outras espécies.
- Denuncie carroças, faça contato com controle urbano de sua cidade, chame a Polícia Militar para fazer um boletim de ocorrência de crime ambiental. Lei Ambiental 9605/98 art32;
- Leilão de animais resgatados não é o ideal. Eles são leiloados e voltam a ser vendidos e/ou alugados para trabalharem novamente atrelados em carroças. As ONGS, Santuários e os Centros de Equoterapia deveriam assumir esses cavalos, como medida paliativa, recebendo ajuda do Estado.

Em Foz do Iguaçu, carrinhos elétricos movidos a bateria feitos por técnicos da Itaipu Binacional foram cedidos para catadores de material reciclado que integram cooperativas.
Essa é uma alternativa para o uso de carroça.
- O que alimenta as carroças: materiais recicláveis, entulhos e material de construção. Acabe com esse meio! Não deixe que carroceiros peguem o seu lixo! Não contrate carroceiros para pegar entulhos! Não compre em lojas de material que usam o trabalho de carroceiros! Proteste! (A COMLURB faz a retirada de entulhos gratuitamente no RJ)
- Mande e-mails para gabinetes de políticos exigindo leis proibitivas, e projetos de alternativas aos carroceiros.
- Reprima, alerte, conscientize. Reproduza e distribua essas informações.
- Não perca a chance de dar água fresca e legumes a um cavalo;
Leis:
Lei nº 11.478 de 1994 e Lei nº 11.887 de 21/set/1995 - promovida por Celina Valentino -que proíbe o emprego de veículos de tração animal, de carga ou montados no Município de São Paulo. Ambas são baseadas no Decreto Federal nº 24.645.
Sociedade, carroceiros e animais
Não dá mais para fingirmos que as inúmeras carroças existentes na cidade nada significam. Carroceiros excedem-se em abusos e infrações. Muitos são mestres em atrocidades para com os animais, impondo-lhes um calvário de dores e privações de direitos.
Considerando-se as exceções, os bichos trabalham o dia todo sob pressão e chibatadas, sem comer, beber ou descansar, e, não raras vezes, são alugados para trabalharem também no período noturno. Os apetrechos - que os prendem covardemente à carroça - causam-lhes ferimentos e desconforto, além de ficarem expostos às intempéries, como sol forte ou chuva e frio. Alijados de suas condições naturais de vida, à noite, solitários, são presos em cubículos ou amarrados em arbustos, quando não saem a vagar procurando por comida. Cavalos doentes, éguas prenhes e burricos vêm da periferia, de lugares longínquos, e percorrem dezenas de quilômetros todos os dias. São agredidos, tratados com despreparo e negligência. Resultando: animais apáticos, tristes, desnutridos e subjugados. Deles tudo é tirado, desde a cria até a liberdade.
E os carroceiros? Estão no limite da pobreza, moram em buracos, vivem à margem da sociedade, em condições insalubres e aviltantes, têm um histórico de despreparo educacional, de doenças, de violência. Agredidos por um desumano sistema econômico, esses excluídos brutalizam também a família, além dos animais. Só demagogos, oportunistas ou omissos podem defender uma profissão que não eleva a pessoa à condição de cidadão. Carroças na rua evidenciam o nosso fracasso social. Conhecemos indivíduos, e seus inúmeros filhos, que são carroceiros há décadas e continuam vivendo na mesma situação de subemprego e miséria. Como podem, então, se mal têm para si, cuidar de um animal de grande porte? Como é que fica a situação desse ser que é tutelado pelo Estado e tem direitos garantidos por lei? Então o bicho, que nenhum mal cometeu, tem que trabalhar para nós como escravo e arcar com o ônus da nossa desequilibrada e injusta organização social. Os animais, ao contrário do que se apregoa, não nasceram para nos servir, cada espécie tem sua própria e inerente razão de ser,e já está mais do que na hora da superação desse cômodo e imoral especismo, termo usado por Peter Singer e outros filósofos e juristas contemporâneos para se referirem ao preconceito contra os seres não-humanos.
Ainda infringem o Estatuto da Criança e do Adolescente e as leis de trânsito ao colocarem menores trabalhando, conduzindo carroças pela cidade. A omissão dos poderes e órgãos responsáveis só serve para dar respaldo a ilegalidade e maus tratos. Ser indiferente e cruel para com os animais acostuma o nosso olhar e resvala na indiferença e crueldade para com os homens. A exploração não atinge apenas o cavalo usado para tração, mas também o carroceiro (cujo papel está sendo assumido, cada vez mais, por mulheres e crianças), pois dele passam longe os mais elementares direitos trabalhistas. Mais lógico seria cadastrar e organizar esses catadores informais em associações ou cooperativas, em usinas de processamento de lixo, com veículos motorizados, remuneração, direitos assegurados e formação educacional profissionalizante. Enfim, eliminar, limitar ou regulamentar atividades que atentem contra a dignidade dos homens e das outras espécies é uma conduta generosa e dever de sociedades ditas civilizadas.
As autoras, Sônia Marques Joaquim e Vânia Rall Daró, são, respectivamente, professora aposentada da Unesp-Bauru e advogada e tradutora pública.
Informações Úteis:
- Conheça o trabalho em prol dos cavalos:
Ons Chicote Nunca Mais http://www.chicotenuncamais.org/
Santuário das Fadas http://santuariodasfadas.org/
- Telefones:
DEMA (21)
Ministério Público (21)
Comlurb (21) 3890-4977 (recolhe entulhos gratuitamente (galhos, tijolos, etc). É só ligar e solicitar o serviço dando o endereço.
Assista:
Vida de Cavalo - Instituto Nina Rosa (documentário)
Corcel, Espírito Indomável (animação infantil)
Notícias Relacionadas:
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- Leilão: cavalos podem ser retirados - 28/08/2008
Fontes:
http://www.bastaclicar.com.br/noticias/noticia_mostra.asp?id=8613
http://portal.rpc.com.br/gazetadopovo/vidaecidadania/conteudo.phtml?tl=1&;id=794461&tit=Cavalos-sao-mortos-de-forma-misteriosa
http://carrocastemsolucao.blogspot.com




